Subir ao Farol do Mucuripe garante boa vista, mas agora algo a mais: momentos de arte e expressão. A programação cultural do equipamento iniciou neste mês de julho a partir de visitas mediadas destinadas a grupos, instituições e escolas das redes pública municipal e estadual. O objetivo é fortalecer o espaço como lugar de memória para a Capital.
As visitas desenvolvem diálogo sobre a história do Farol, abordando o processo de edificação dele, relação com o território do Grande Mucuripe e importância do prédio para a história de Fortaleza.
O movimento, aguardado, é um primeiro passo rumo à promessa noticiada pelo Diário do Nordeste em fevereiro deste ano. Na reportagem, a previsão de realização das ações culturais no lugar era no primeiro semestre de 2026.
À época, verificou-se que a decisão de tornar o Farol um espaço para fruição de arte e cultura ocorreu durante a reforma dele, concluída em outubro do ano passado. Conforme o Chefe de Gabinete da Secretaria da Cultura do Estado (Secult-CE), Viana Júnior, os primeiros meses de reabertura do Farol não proporcionaram atividades exatamente devido a reuniões de GT e trabalho interno da Secult, a fim de maturar e transformar cada proposta em um plano de trabalho “viável e potente”.
Corta para este instante: agora a programação prevê também apresentações artísticas nos segmentos teatro e contação de histórias, entres outras linguagens, voltadas para todos os públicos.
Ainda está prevista a realização de uma exposição no segundo semestre. A ideia é que a mostra destaque narrativas sobre memória e identidades do território a partir de registros que contam a trajetória do Mucuripe e a relação do bairro com o Farol, em diálogo com os múltiplos olhares da comunidade.
Outra iniciativa é a construção de edital, cujo objetivo será credenciar artistas, coletivos, grupos e instituições integrantes da localidade a fim de desenvolver propostas em diversas linguagens artísticas, promovendo a ocupação cultural do espaço. Serão selecionadas 10 instituições e a realização de 20 ações.
Mudança de gestão
As informações foram repassadas, em nota, pelo Instituto Mirante, que anunciou e contextualizou a mudança de gestão do Farol. No texto, a organização destaca que a Secult ficou responsável pela gestão do equipamento desde as recentes restauração e reforma dele.
“Essa gestão resulta de um processo de diálogo e construção conjunta com associações, instituições e coletivos que compõem o Grande Mucuripe. Por meio de encontros periódicos, foi possível construir um plano de trabalho estruturado com diretrizes para o funcionamento do espaço, de forma participativa com a escuta da comunidade”, ressaltou.
A partir de agora, o bem tombado é gerido pelo Sobrado Dr. José Lourenço – integrante da Rede Pública de Equipamentos Culturais da Secult-CE, cuja gestão mantém parceria com o Instituto Mirante. O órgão, por meio da Assessoria de Políticas Afirmativas e Articulação Comunitária, prevê a realização dos projetos Mapeamento Afetivo, Repartir e Cine Dá Teu Nome, com previsão de realização no Mucuripe ainda neste ano.
“O Mapeamento Afetivo identifica associações, coletivos culturais, lideranças comunitárias, patrimônios materiais e imateriais e outras referências locais, contribuindo para o fortalecimento da memória coletiva e dos vínculos comunitários dos territórios onde estão localizados os equipamentos culturais geridos pelo Instituto Mirante”, frisa a nota.
O projeto, conforme o texto, será executado por bolsistas-pesquisadores habitantes do Mucuripe, selecionados via edital público. O “Repartir”, por sua vez, propõe momentos coletivos de escuta e participação social para fortalecer a articulação entre o território e o Farol do Mucuripe. Por fim, o “Cine Dá Teu Nome” é uma ação voltada para a visibilidade e o protagonismo LGBTQIAPN+ em produções audiovisuais.
“A partir dessas ações, o Farol do Mucuripe amplia sua atuação como bem cultural de preservação da memória da cidade e de seus moradores e moradoras”, conclui a nota.
Reivindicações para gestão compartilhada
Reivindicação para uma gestão compartilhada do Farol do Mucuripe – modelo no qual decisões são tomadas em conjunto, quando diferentes atores sociais entram em consenso sobre projetos – iniciou antes mesmo de o Farol integrar a rede de equipamentos culturais do Estado. Era demanda antiga.
Uma vez a área do Grande Mucuripe concentrar sem-número de associações, coletivos, museus orgânicos e pontos de cultura, pareceu natural o atual movimento.
Cravado na bandeira do Estado do Ceará e tombado como patrimônio histórico e artístico do povo cearense, o Farol do Mucuripe fica no bairro Cais do Porto, região do Grande Mucuripe, e iluminava aproximadamente 24 km da costa litorânea, na zona portuária de Fortaleza, por onde diariamente as embarcações chegavam e partiam.
No século XIX, a edificação reinava absoluta, com possibilidade de ser avistada de vários pontos da cidade. Desde 1958, quando foi inutilizado como instrumento de navegação, o monumento passou por períodos de reformas e abandonos.
A mudança veio quando, na última década, o equipamento quase teve fim. Atuação do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) deu novo contorno ao espaço e garantiu a permanência dele na paisagem da Capital.
A luta foi travada por moradores da comunidade do Serviluz e espelhou a resistência para a preservação de um símbolo tão forte para a cidade e o Estado como um todo.
FONTE – DIARIO DO NORDESTE